quarta-feira, 9 de setembro de 2026

foi só um acidente

 

[ muito bom ]

título original. yek tasadof-e sadeh
género. drama. crime.
duração. 1h 43m
ano.
2025
realização. jafar panahi.
argumentojafar panahi. nader saeivar. shadmehr rastin.
 
protagonistas. vahid mobasseri. mariam afshari
. ebrahim azizi. hadis pakbaten. majid panahi. delmaz najafi. mohamad ali elyasmehr. omid reza.

sinopse. um mecânico pensa reconhecer o seu ex-captor uma noite. decide matá-lo, mas antes tenta confirmar junto de outros ex-detidos se o homem é aquele que os aterrorizou. [imdb]
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foi só um acidente, de jafar panahi (táxi), começa com um som que desencadeia toda a história.

uma noite, uma família regressa a casa de carro quando sofrem um pequeno acidente. quando param para pedir ajuda a dois indivíduos, um destes, vahid, julga reconhecer o ranger da prótese do condutor. está convencido de que o homem é eghbal, o seu carrasco quando esteve na prisão. vahid nunca lhe viu o rosto porque estava sempre vendado durante os interrogatórios.

enraivecido, acaba por raptar o homem; leva-o numa carrinha até ao deserto com a intenção de o enterrar vivo. mas hesita no último momento, e decide procurar outras vítimas de eghbal para lhe confirmar a identidade.

grande parte do filme decorre dentro da carrinha, num espaço mínimo onde os antigos prisioneiros se acumulam e discutem justiça, vingança e perdão.

nos filmes iranianos que tenho visto recentemente (como a semente do figo sagrado, de mohammad rasoulof), o mal surge ligado ao medo e à violência do regime dos aiatolas, num terror constante para quem o vive no quotidiano foi só um acidente não é excepção.

visualmente, o filme tem um realismo muito próximo do documentário. o elenco reforça isso: o único actor profissional é o que interpreta o possível ex-carrasco.

a ideia para o argumento surgiu durante a segunda passagem de panahi pela prisão, entre 2022 e 2023, quando conviveu com centenas de presos políticos e opositores do regime.

foi só um acidente foi depois rodado clandestinamente, em vinte dias. a pós-produção foi concluída em paris, longe do alcance das autoridades iranianas.

pela primeira vez em vinte anos, o realizador foi autorizado a sair do irão para apresentar a obra no festival de cannes. o resultado foi histórico: foi só um acidente venceu a palma de ouro da 78.ª edição do festival, em 2025, e tornou-se também o primeiro filme iraniano nomeado para os globos de ouro (não ganhou).

enquanto promovia o filme no estrangeiro, panahi foi condenado in absentia a um ano de prisão e proibido de viajar por alegadas “actividades de propaganda”. volta sempre ao país porque «é a sua pátria».

não há porque separar o filme da dimensão política que o rodeia. há quem considere que a palma de ouro se explica tanto pelo simbolismo político, como pelas qualidades cinematográficas da obra.

recomendo-o vivamente.

Imagens: Google Search Images

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mataste-me inúmeras vezes. esqueceste-o? sou um um morto-vivo .
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